Centro de Investigação Sobre Desenvolvimento Humano e Educação Infantil

X Encontro Científico do CINDEDI

De 14 de fevereiro de 2005 às 09:00 à 18 de fevereiro de 2005 às 00:00Grátis

X Encontro do Cindedi... Conta redonda, demarcando uma história coletiva de buscas, lutas e avanços. História que se alonga para além desses dez anos de Reuniões Científicas formais, realizadas com o apoio da Fapesp e CNPq a sucessivos projetos temáticos ou integrados. Refletindo sobre essa história, lembro que seu começo se deu há mais de 25 anos. Em 1977, já tínhamos na Filô um grupo de pesquisa investigando/trabalhando sobre desenvolvimento e educação infantil, pesquisando as creches de Ribeirão Preto e da região. Elaborávamos projetos, solicitávamos auxílios e bolsas, fazíamos relatórios, trabalhávamos nas creches com estagiárias, fazíamos seleção, treinamento e supervisão de educadoras... Em 1977 e 1978, contamos com o auxílio da Fapesp ao projeto “Reação da criança à separação da mãe: implicações para o conceito de apego”. Várias dissertações de mestrado foram elaboradas e defendidas nessa época, dentre as quais as de Márcia Bonagamba Rubiano, Terezinha Fiorini Picolo e Regina Secaf. E já contávamos com vários bolsistas de IC, dentre os quais Lenira Haddad e Cláudio Roberto Batista. O primeiro grande auxílio veio do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP) para o desenvolvimento do projeto “Condições de atendimento e desenvolvimento de crianças pequenas de baixo NSE, cujas mães trabalham fora de casa” (1982-1984). Obtivemos, então, nossa primeira verba para fazer um filme em Super-8 - “A arte de varrer para debaixo do tapete” –, denunciando as precárias condições do atendimento nas creches da região, e a necessidade urgente de melhorá-las. Várias pesquisas de IC, mestrado e doutorado estavam então em desenvolvimento, já com uma preocupação teórico-metodológica bem evidente. Dentre elas, o doutorado de Zilma, Maninha (Maria Conceição Lyra), Mara e Márcia. As transformações das metodologias acompanharam os avanços teóricos da Psicologia e de outras ciências humanas no decorrer dos anos. Esses avanços teóricos suscitam novas perguntas, as quais deixam de ser respondidas pelos procedimentos usados até então, exigindo uma nova elaboração teórico-metodológica. Por vezes, os mesmos procedimentos podem continuar a serem usados na coleta dos dados (um roteiro de entrevista semi-estruturado, p.ex., ou uma gravação em vídeo), porém sua análise passa a ser circunscrita por outros parâmetros, levando a outros procedimentos de análise e a interpretações diversas. Os estudos da época acima referida e de períodos anteriores foram de observação direta das interações mãe-criança. Na realidade, tratava-se de uma novidade, pois haviam predominado na Psicologia até então os estudos a partir de entrevistas e testes. Retomava-se, na década de 60, uma tradição de períodos anteriores à segunda guerra mundial. Nos primeiros estudos feitos no Brasil, aproveitamos o que eu aprendera em meu doutorado em Londres, desenvolvido de 1965 a 1967, cujo título, “Development of a method for the study of mother-child interaction during mealtime”, já demonstrava um interesse metodológico. Ao retornar ao Brasil, montei, com o auxílio da Fapesp, um laboratório de observação com espelho unidirecional, que ainda existe no prédio do antigo Emboaba, portanto no mesmo edifício onde atualmente funciona a pós-graduação em Saúde Mental, da FMRP. Naquele laboratório, começaram a serem desenvolvidas pesquisas sobre interação mãe-criança pelas então bolsistas de IC e de Aperfeiçoamento (Mara, Edna Marturano e Zélia Biasoli Alves), sob minha orientação. Em 1969 e 1970, ministrei na PG em Psicologia Experimental do IPUSP uma disciplina sobre “Técnicas de observação e seu uso em pesquisa”. Minha experiência e aprendizagens nessa área se enriqueceram muito com minha nova estadia na Inglaterra, agora trabalhando como pos-doctorate research fellow pelo SSRC, com o reconhecido etólogo Nick Blurton Jones. Juntos, desenvolvemos um projeto sobre “Development of attachment and social behaviour in one to three years old children”, seguindo a tradição psicoetológica, na qual ele era mestre. Meu livro “Mãe e Criança: separação e reencontro (SP: Edicon, 1986)” e minha tese de livre-docência contêm uma descrição detalhada desses estudos, assim como dos vários procedimentos de coleta e análise de dados neles envolvidos. Nas análises realizadas após o retorno ao Brasil, em 1976, agora já como docente da FFCLRP, utilizamos inclusive um programa de computador para a análise de seqüências comportamentais - o Ethodata (desenvolvido por Renato Sabatini) -, que, na época, exigia o uso simultâneo de cinco imensos computadores do Centro de Computação da USP, SP. Decepcionadas com as trabalhosas e demoradas análises da máquina, que acabavam não distinguindo se a criança se aproximava de outra criança, da mãe ou da porta, desenvolvemos um sistema de análise mais aberto e flexível - o SASIRO (Sistema de Análise de Seqüências de Interação a partir de Registros de Observação), que não exigia tantos recursos computacionais, bastante escassos e insatisfatórios nessa época. O SASIRO pode ser empregado na análise de diversos tipos de registros observacionais de interações entre vários sujeitos, usando sistemas de categorias variados. Ele deixava ao pesquisador a tarefa de definir, conforme seus objetivos e seu objeto de estudo, os inter-atores, as categorias e os critérios para definição das cadeias de interação, de início e interrupção de cadeias, assim como os intervalos de tempo a serem considerados. Já interessadas em analisar conjuntamente o ambiente físico e social das creches e as interações que nele ocorriam, recorremos também a outras fontes metodológicas, como ao estudo da Home, por Beth Caldwell, modificado por Hugh Lytton; e ao procedimento utilizado por Bárbara Tizzard, no estudo de abrigos para crianças na Inglaterra, metodologia esta que foi usada com modificações por Regina Secaf em seu mestrado (PUC-Campinas, 1985), que saiu publicado com o título “Oportunidades de contato entre o adulto e a criança em creches” (RBEP, 1986, 158: 130-163), já que as interações observadas entre as educadoras e as crianças eram poucas e precárias. Nesse período, tivemos também um rico intercâmbio com o pessoal de Saúde, época em que atuei como assessora do Dinsami (Divisão Nacional de Saúde Materno-Infantil do Ministério da Saúde) e estive envolvida no projeto “Critical assessment of key issues in research on malnutrition and behaviour”, como membro de um Comitê da International Union of Nutritional Sciences (USA). Nosso grupo de pesquisa esteve, então, envolvido em uma avaliação de peso e altura e de desenvolvimento com crianças de algumas creches de Ribeirão Preto, usando as metodologias tradicionais nesse tipo de estudo. Márcia Rubiano elaborou seu mestrado comparando as diferentes escalas que lhe permitiam avaliar o desenvolvimento das crianças. O envolvimento do grupo com crianças, famílias e educadoras vivendo em situações extremamente precárias e a nossa vontade de transformar suas condições de vida, entretanto, despertaram outras questões metodológicas. Estabelecemos então um diálogo muito interessante com as propostas de pesquisa-participante e pesquisa-ação, aproximando-nos assim de uma discussão muito presente no final da década de 70 e início dos anos 80, sobretudo no campo da Educação e Saúde. Em 1981, organizamos um Seminário latino-americano sobre Metodologias alternativas em projetos de pesquisa-ação que visam promover o desenvolvimento da criança desprivilegiada, promovido conjuntamente pela ISSBD e SPRP (atual SBP). Reunimos umas 40 pessoas da América Latina e consultores europeus e norte-americanos, em um formato semelhante ao dos nossos encontros do Cindedi, e tivemos excelentes discussões. Peter Spink e Frances Horowitz foram excelentes parceiros nessa discussão. Dessas experiências, permaneceu no grupo a preocupação em aliar sempre a teoria e a práxis na pesquisa, uma desafiando, questionando e enriquecendo a outra. E a certeza da importância de um compromisso ético com a população investigada, que se traduza no respeito a seus direitos e no compromisso de trabalhar para que suas condições de vida sejam melhoradas. Disso resultaram varias atividades e publicações do Cindedi, que não serão descritas ou referidas aqui, visto que a proposta agora é apenas recuperar um pouco do percurso metodológico do Cindedi, como um aquecimento para as discussões programadas para o X Encontro. Uma nova virada teórico-metodológica veio a ocorrer com a decisão de Zilma, que vinha do campo da Pedagogia e de uma interessante experiência e reflexão sobre psicodrama pedagógico, particularmente a partir de Moreno, de filmar e analisar microgeneticamente as interações de crianças em creches a partir do conceito de jogos de papel, fundamentada em autores que, na época, denominávamos de sócio-interacionistas construtivistas, como Vygotsky, Wallon, Mead, dentre outros. As leituras e discussões foram múltiplas, com uma intensa construção de novas idéias e com desafios a serem continuamente enfrentados. Ana Almeida Carvalho, com um referencial mais psicoetológico, foi nossa parceira próxima nessa construção, enquanto pioneira nacional no estudo das interações de crianças pequenas, trazendo consigo Maria Isabel Pedrosa que, na época, fazia seu doutorado sob sua supervisão, filmando grupos de crianças em interação na mesma creche em que Zilma coletava seus dados. Essa creche de Vila Praia, em SP, era dirigida por Ana Mello, que, logo após, deixou-a para vir assumir a direção da creche Carochinha. Instigada pelas novas questões e leituras, decidi ir beber na fonte, fazendo um pós-doutorado de seis meses em Paris com Jacqueline Nadel, última orientanda de Wallon, junto ao Laboratoire de Psychobiologie de l’Enfant. Estudava e trabalhava na salinha onde estavam os escritos originais de Wallon! Na época, Nadel e Baudonniere desenvolviam pesquisas sobre interações de pares e trincas de crianças de 1 a 4 anos, em salinhas especialmente montadas com objetos variados e em duplos exemplares. Faziam uma discussão sobre o que era interação e usavam um sistema de categorias muito interessante e complexo. Fizemos uma tentativa de replicar esses estudos em Ribeirão Preto, com Solange Ormos e Geórgia de Sordi, bolsistas de IC e de Aperfeiçoamento. A aprendizagem foi muito rica, sobretudo em termos de reflexões e discussões teóricas e metodológicas, mas o projeto infelizmente não foi finalizado em termos de publicação. Em Paris, trabalhei também junto ao Cresas, reconhecido centro do INRP (Institut National de Recherches Pedagogiques), com um trabalho pioneiro em pesquisa sobre interação de crianças pequenas e em trabalhos com educação infantil. Dentre a série de livros muito interessantes que publicaram, havia dois que utilizamos muito para falar de interação de crianças pequenas: “Les Bebés entre Eux” e “Jeux de Fiction”. Ainda, houve um terceiro, mais recente, que trata justamente do acolhimento as crianças e suas famílias em creche, coordenado por Sylvie Rayna. Estabelecemos um contato especial com Mina Verba, que desenvolvia uma análise microgenética bastante semelhante àquela utilizada por Zilma. Esse estágio foi ainda enriquecido pelo encontro com Alain Legendre, arquiteto francês que terminava seu doutorado na área de psicologia do desenvolvimento sob a orientação de Jacqueline Nadel, focalizando o papel do arranjo espacial sobre as interações de crianças em creche. Em nossas discussões, achamos que seria muito interessante realizar estudos semelhantes em creches brasileiras, onde as condições de atendimento eram bastante precárias, diversas daquelas observadas nas creches parisienses. Essa proposta de estudo foi aceita e assumida por Mara e Márcia como tema de suas teses de doutorado. Tais projetos criaram novas demandas em termos de metodologia de coleta e análise de dados, exigindo um avanço tecnológico do nosso grupo de pesquisa com relação a equipamentos a serem empregados. Montou-se assim um projeto tecnologicamente mais complexo, com solicitação de várias filmadoras e vídeos, que obteve o auxílio da Fapesp. A vinda de Legendre ao Brasil, em 1986, quando esses estudos estavam iniciando, veio a fortalecer o desenvolvimento dessa nova abordagem metodológica de estudo das interações de crianças em creche, liderada hoje por Mara. Estabeleceram uma interlocução interessante com os pesquisadores brasileiros que trabalham com Psicologia Ambiental, usando como esteio a abordagem ecológica de Urie Bronfenbrenner. Ademais, abriram um novo foco de pesquisa sobre avaliação das condições de atendimento e desenvolvimento em creches e pré-escola, com uso de escalas e analise de documentos. O ano de 1986 marcou também um período de intenso intercâmbio com o grupo de pesquisa sobre Aquisição de Linguagem, coordenado por Claudia Lemos no Instituto de Estudos da Linguagem, da Unicamp, com quem ministrei uma disciplina de PG sobre “Imitação”, da qual participaram dentre outras Zilma, Bel, Maninha e Amélia Hamburger. Um movimento semelhante estava começando a ocorrer na Psicologia, cujas pesquisas nas décadas mais recentes haviam sido freqüentemente norteadas por um paradigma behaviorista. Talvez por isso, o campo da psicolingüística, da semiótica, da análise de discurso de orientação francesa nos tenha parecido tão atraente e complexo. Éramos continuamente questionadas pelas lingüistas sobre o status do sujeito na Psicologia, ao qual se atribuía características inatas, vindo a desenvolver uma personalidade cuja existência de certa forma independia da cultura e da linguagem. Para os lingüistas, o sujeito era o da linguagem, que se constituía e transformava no discurso e nas interações. Essas discussões foram tomando corpo na Psicologia, sobretudo entre os construcionistas, e nos propõe desafios constantes em nossos estudos, sobretudo sobre self e subjetividade. O contato com Claudia Lemos e seu grupo valeu muito a pena, pois aprendemos muito. Porém, ficamos preocupadas com o tamanho de nossa ignorância e com a imensidade de material por estudar. Aproximamo-nos também de outros grupos de pesquisa, como o de Linguagem e Pensamento, de Ana Luiza Smolka, Angel Pino e Maria Cecília Góes, da Faculdade de Educação da Unicamp, que estavam enfrentando desafios semelhantes. E, ainda, do grupo de Mary Jane Spink, na PG em Psicologia Social da PUCSP, sobre Representações Sociais, que posteriormente avançou propondo uma nova perspectiva teórico-metodológica sobre Práticas discursivas e produção de sentidos no cotidiano. A atividade interdisciplinar cria sempre sérios desafios e exige muita humildade, persistência e paciência com nossas limitações. Pertencer a um grupo, porém, traz a vantagem de se poder distribuir as leituras e estudos entre os membros do grupo, que podem assim compartilhar suas aprendizagens em reuniões de estudo e discussão, fazendo o grupo em seu conjunto avançar. E os esforços, estudos e avanços de cada pós-graduando ou estudante de IC contribuem nessa direção. Acho que o avanço ocorrido com todo esse esforço veio a refletir-se quase vinte anos mais tarde na elaboração de uma nova perspectiva teórico-metodológica para o estudo do desenvolvimento humano, apresentada em nosso livro Rede de Significações. Outro interlocutor importante na construção da RedSig foi Jaan Valsiner, em primeiro lugar por nos fazer acreditar que a idéias e pesquisas que estávamos elaborando eram originais e de alta qualidade, merecendo publicações internacionais que as tornassem mais conhecidas no primeiro mundo. Porém, mais importante do que isto, suas idéias, em especial aquelas apresentadas em seu livro de 1987 “Culture and the Development of Children’s actions: a cultural-historical theory of developmental psychology” e as discussões que fez de nossos trabalhos em seus vários contatos conosco, alimentaram e transformaram muitos dos nossos conceitos, ajudando particularmente a formular o que entendemos por circunscritores. Retomando os percursos metodológicos do Cindedi, seus avanços e dificuldades, parece-me importante comentar que a década de 80 e parte dos anos 90 foram marcados por vários aperfeiçoamentos no campo dos estudos observacionais das interações criança-criança e adulto-criança. Nossas conquistas e dúvidas foram amplamente discutidas e compartilhadas com vários colegas pesquisadores nos encontros anuais da SPRP/SBP. Disso resultou uma publicação conjunta sobre analise de registros em vídeo, publicada na Psicologia: Reflexão e Critica, v.12, 3, 261-267, 1997. Em 1994, um grupo acabou se constituindo formalmente na ANPEPP em torno do tema, produzindo, em 1996 uma publicação conjunta sobre Investigação da Criança em Interação Social, coordenada por Maria Isabel Pedrosa. Seguindo a linha desses estudos observacionais, os quais se prolongam até os dias de hoje, vários estudos se desenvolveram a partir da análise de vídeo, como os trabalhos de Kátia, Marisa Vasconcelos, Cleido F. Vasconcelos e Leila Sanches de Almeida, alguns dos quais avançaram particularmente na análise microgenética do material. No decorrer desse período, entretanto, foi se ampliando no Cindedi o interesse específico pela análise das significações, das falas e do discurso, sobretudo naqueles envolvidos com a discussão sobre self e subjetividade, e que utilizam entrevistas como instrumento básico de coleta de dados. As dúvidas eram muitas, e passamos a explorar diversos conceitos, autores e perspectivas, na busca de pistas que pudessem orientar nossos trabalhos de análise. O estudo conjunto do livro Atos de Significação de Jerome Bruner, quando contamos com uma interlocução preciosa com Reinaldo Furlan, nos forneceu uma base importante de apoio. As participações em disciplinas de PG e em congressos, e os encontros anuais do Cindedi, ampliavam sempre o leque de referências. Cada novo autor/interlocutor/teoria interessante encontrado mostrava-se bastante exigente, fazendo-nos mergulhar em novos conceitos, artigos e autores, com o objetivo não apenas compreendê-los, como também de verificar sua adequação para responder aos objetivos do trabalho, as perguntas feitas e as análises pretendidas. Telma Vitória explorou extensamente a teoria das representações sociais para analisar as concepções das educadoras sobre as mães e famílias das crianças da creche. Sueli Pauli fez o mesmo com a análise do discurso de orientação francesa para analisar o discurso de educadoras de duas creches, relacionando-o as diferentes praticas de formação continuada a que tem acesso. Ana Paula e Nina Rosa aproximaram-se do construcionismo, e de autores que discutem identidade, posicionamento e self, que vinham sendo explorados por Marisa Japur, Mera e Carla Guanaes, na análise de grupos terapêuticos, em um diálogo bastante próximo com nossa antiga parceira do campo da Psicologia Social Mary Jane Spink, que acabava de publicar o livro “Praticas Discursivas e Construção de Sentidos no Cotidiano”, consubstanciando um importante avanço teórico frente a sua rica produção anterior sobre representações sociais. Os conceitos de posição e posicionamento, amplamente usados por esses vários autores em sua análise, apesar de suas diversidades, se aproximavam em muitos aspectos do conceito de jogos de papel, conforme formulado por Zilma. Essa ampla exploração novamente foi estimulada por Jaan Valsiner, que recebeu membros do grupo em North Carolina (Zilma) e na Clark University (Kátia), além de sua participação nos primeiros encontros nossos e de seu freqüente contato pessoal e virtual com o grupo, através do qual nos fornece muito material interessante dele próprio e de outros, nos estimulando a contribuir para vários de seus livros e publicações. O grupo de Ângela Branco foi outro parceiro importante nessas co-construções, pois vinha apresentando um percurso semelhante ao nosso, partindo de estudos observacionais, e caminhando para a análise de entrevistas. Trocamos muitas idéias e referências que enriqueceram nossa discussão. Carmem Craidy e seu grupo, por sua vez, não só nos auxiliaram na construção da RedSig, como aprofundaram-se em seu estudo, discutindo seus conceitos e fundamentos em disciplina de PG, quando estabeleceram uma discussão em rede, como também procurando usar essa perspectiva em vários de suas pesquisas, trazendo novas questões e contribuições. Assim, os últimos dez anos de encontros formais do Cindedi demarcam um período criativo e único de construção da RedSig, uma perspectiva nova e original para o estudo dos processos de desenvolvimento. Não acho necessário retomar aqui os conceitos básicos da RedSig, pois os primeiros capítulos de nosso livro os apresentam claramente, mas devo ressaltar o enorme contribuição dos debatedores e comentaristas que nos ajudaram a co-construí-la com múltiplas mãos. No entanto, em reuniões e supervisões temos percebido múltiplas dificuldades em assumir e empregar os conceitos dessa perspectiva, sobretudo na análise dos dados empíricos de cada projeto. Foram essas dificuldades, aliás, que motivaram a temática dessa reunião, propondo-se um debate sobre as questões metodológicas envolvidas particularmente na análise dos dados. Do ponto de vista da coleta do corpus a ser analisado, acho que já temos maior clareza e segurança. A perspectiva da RedSig nos propõe abordar o objeto de estudo considerando a Rede de Significações que o circunscreve e que se transforma a cada momento e situação, com foco especial nas interações situadas em contextos específicos, físicos, sociais, ideológicos, simbólicos. Aborda-se assim o fenômeno de maneira ampla, embora sempre norteados pelo foco do estudo, explorando as interações que ocorrem em diferentes cenários, permeadas por uma matriz sócio-histórica acontecente, registrando as posições atribuídas e assumidas a cada momento pelas pessoas em interação, buscando anotar as condições que as estão produzindo e transformando. Vários registros podem ser utilizados nessa ampla coleta: registro em vídeo ou fotos, entrevistas e falas anotadas ou gravadas em áudio, notas de campo, registros a partir de documentos, ... Tem-me parecido mais fácil realizar essa exploração ampla quando um grupo de pessoas trabalha teórica e praticamente sobre um mesmo tema. Isso nos permite abordar esse tema a partir de diferentes aspectos e cenários, focalizando diferentes interlocutores ou recortes temáticos diversos, requerendo o uso de variados tipos de registro. A montagem, atualização e manutenção cuidadosa de um banco de dados, que possa ser usado por vários pesquisadores, têm-se mostrado de extrema importância nesse tipo de estudos. Várias pesquisas do Cindedi têm de fato sido feitas a partir de bancos de dados diversos. Também quanto à postura do pesquisador, acho que já avançamos bastante. Sabemos todos que o dado não é dado, mas sim construído na relação pesquisador-pesquisado. Que o pesquisador não apenas recorta seus dados, conforme seus objetivos e referenciais teóricos, mas é um participante ativo da situação de pesquisa, com relação ao qual o pesquisado se posiciona continuamente, informando e se comportando de certas maneiras e não outras. Essa constatação, evidentemente, deve ser levada em conta também na análise dos dados. Atualmente, assumimos claramente uma postura não realista em nossas pesquisas, reconhecendo que trabalhamos com atos de significação, com discursos, com interpretações. Estas, porém, estão sujeitas a uma rede de circunscritores, que estabelecem limites e possibilidades ao que é interpretado. A proposta de pesquisa do Cindedi e da RedSig permanece aberta ao uso simultâneo de variados procedimentos de coleta e analise. Kátia, Carol, Regina, Lílian, Claudia Yazzle, Ticiana e outros tem representado e avançado bastante nessa proposta difícil, buscando combinar a análise das interações verbais e não verbais observadas em seu contexto, atravessadas por uma matriz sócio-histórica acontecente. O estudo de autores diversos (como Bakhtin, Foucault, Fogel...) tem fornecido pistas para essa construção metodológica. Para finalizar esta apresentação, e aquecer para a discussão nos grupos e durante o encontro, vou transcrever parte de um email de Zilma, que me parece suscitar questões interessantes e importantes. “Em relação às questões para o grupo, penso que todos os sub-grupos estão se havendo com o desafio de pesquisar dentro de novos parâmetros de produção do conhecimento e pelo que entendo se refere à relação com a linguagem e à definição do sujeito. Isto é mais importante do que a velha separação entre quantitativo e qualitativo. Temos feito trajetória neste sentido e os alunos ficam nos pedindo procedimentos e passos operacionais para tratarmos certo material empírico, quer sejam dados de observação, de entrevistas, de documentos. Olhar estes dados como elementos datados é o primeiro passo, o que envolve entendê-los em uma matriz sócio-histórica. Mas aí surge a questão: como captar esta matriz e como saber se é ela mesma que está atuando. As falas e outras formas comunicativas captadas pela observação de interações das crianças: são indicações, pedidos, ordens, ameaças, e são fragmentos de discursos que circulam no ambiente da criança, usados para os indivíduos se dirigirem aos parceiros no desempenho dinâmicos de diferentes papéis que vão criando a situação interativa, tornando-a mais voltada ao real ou ao faz-de-conta. As interações assimétricas criadas nas situações de entrevistas nos levam a considerar cada resposta como possível intenção de criação de um efeito no entrevistador, de construção de uma narrativa com matizes de um drama, ou seja, de uma versão dos conflitos existentes, das superações ocorridas, dos embates havidos. Raramente uma entrevista chega a aspectos cuja resposta é um fato, um nome. Mesmo quando ela pede um "sim" ou um "não", ela coloca o sujeito em uma posição dramática, de criar uma versão de mundo. A leitura de um documento oficial remete a uma forma de ler a realidade. Os depoimentos escritos das alunas/educadoras elaborados ao final do nosso curso costumam trazer uma visão heróica de sujeito que supera dificuldades materiais e injustiças. Qual a matriz destes discursos? São discursos ou depoimentos? O que em um depoimento é uma descrição, uma representação, um posicionamento, um discurso? E o que distingue cada uma destas coisas?” Termino com algumas reflexões minhas, o resto deixo para o Encontro: buscar entender um fluxo de interações implica sempre considerá-lo situado em um contexto físico, social, ideológico e simbólico, portanto continuamente atravessado por vários discursos acontecentes, que circunscrevem (possibilitam e delimitam) o curso de eventos em um contínuo devir. Busca-se apreender, em suas transformações, os lugares/posições em que cada um se coloca ou é colocado e, reciprocamente, os lugares/posições que estão sendo possibilitados ou restringidos ao outro. Essa busca é continuamente norteada pelas perguntas que formulamos com base em nossos objetivos de pesquisa. Ela pode subdividir-se em vários momentos, quando se define alguns recortes temáticos específicos de análise. E os objetivos podem ser redefinidos no decorrer do trabalho, formulando melhor as perguntas e circunscrevendo mais o foco de análise, o qual pode vir a considerar apenas uma parte do material coletado. Uma boa discussão para todos nós! Clotilde 31.01.2005 Descrição do encontro