Centro de Investigação Sobre Desenvolvimento Humano e Educação Infantil

XV Encontro Científico do CINDEDI

De 22 de fevereiro de 2010 às 09:00 à 26 de fevereiro de 2010 às 18:00Grátis

Esta festa de 15 anos do CINDEDI pode servir de inspiração para o nosso encontro de 2010. O “quem sou eu?”, proposto por Erikson como marca da adolescência, expande-se em mil perguntas. Nosso próprio nome pressupõe que nos dediquemos ao estudo do Desenvolvimento Humano. Mas será que nossos projetos versam sobre esse tema? E o que cada um de nós entende por desenvolvimento humano? Quais suas características, quais suas marcas? Por um certo tempo, a formulação da RedSig nos tranqüilizou. Conseguimos ampliar nosso olhar para apreender a rede complexa de significações em que estamos imersos e que se reorganiza a cada momento e situação, sobretudo a partir das interações que estabelecemos com o(s) outro(s), real (ais) ou virtual (ais). Buscamos investigar os vários elementos que a constituem, põem em movimento e a transformam. Porém talvez tenhamos perdido um pouco o foco na pessoa em desenvolvimento. Lançando um olhar para a produção da Psicologia do Desenvolvimento nacional e internacional, vemos que seu foco continua a ser posto no indivíduo, enquanto para nós, esse foco abrange as pessoas em interação (também em desenvolvimento) e o meio/contexto que continuamente se constitui e se modifica nesse processo. Alguns dilemas básicos demarcam e estão sempre presentes na Psicologia do Desenvolvimento. Vou abordá-los rapidamente apenas lançar estes e outros temas à discussão, sabendo que eles muitas vezes se superpõem. Numa brincadeira de jogar idéias no papel, teci algumas considerações sobre alguns, enquanto outros foram apenas nomeados. O primeiro contrapõe: - constância e estabilidade X transformação e mudança A constância vem de múltiplos aspectos: da história da espécie (filogenética), da família, do grupo social e cultural, e da vida pessoal (ontogenética). Nossos genes, nossas marcas individuais e familiares nos acompanham através da vida. Podem se 4 expressar mais tardiamente, mas demonstram que temos semelhanças, que somos provenientes de um mesmo grupo genético e/ou cultural, familiar. E tem mais: os outros também atribuem e esperam de/em nós essas constâncias. Mesmo as comportamentais, as formas de agir, pensar e falar, conforme os papeis e/ou posições que nos atribuem. E estranham quando rompemos com a mesmice esperada. Em nossa cultura, de nós se espera e nós mesmos temos expectativas de nos tornarmos alguém com certa identidade. Que possa ser reconhecida pelos outros em sua individualidade e nos permita sermos admitidos em uma certa comunidade ou grupo social. No entanto, a transformação e as mudanças, a cada momento e situação e ao longo da vida, são contínuas. E constituem a própria marca do desenvolvimento, que nos diferencia dos outros e de nós próprios, embora haja “loops” reiterativos que nos fazem retornar a pontos anteriores. Mas há mudanças pequenas, que não alteram o todo, e mudanças que realmente demarcam uma transformação. As crises constituiriam momentos privilegiados de mudança. Embora possam também levar à acentuação das próprias características. O segundo contrapõe: - fusão X diferenciação e individuação, em uma busca contínua de identidade A característica dialógica e situada do desenvolvimento nos mergulha em um processo dialético de fusão e diferenciação com os outros, em uma busca contínua de identidade, que envolve tanto o diferenciar-se do outro como o identificar-se com e pertencer a um certo grupo ou comunidade. Mas o não ser enxergado, percebido pelo outro, o não se sentir pertencendo a alguém ou a algum lugar ou grupo, coloca o individuo num vazio, onde ele busca as formas mais loucas e violentas para se afirmar, ou paga um preço alto para pertencer a algum grupo, mesmo que seja de delinqüentes. Outro eixo contrapõe: - estrutura X função 5 No quarto eixo, combino dois pares de idéias, que me parecem falar de campos semelhantes. - intersubjetividade X intrasubjetividade - interpsíquico X intrapsíquico Para o construcionismo radical, tudo é construção social, a qual é marcada pela posição/lugar/papel em que a pessoa se coloca ou é colocada nas interações. O sujeito é apenas um sujeito de um discurso. Influenciada pela Análise do Discurso de orientação francesa (Pêcheux, Eni Orlandi, Claudia Lemos e cia), eu também nos concebia como sujeitos do discurso, portanto sujeitos assujeitados, pela linguagem, pela cultura, por essa série de circunscritores, com poucas possibilidades de negociação com os limites e possibilidades que nos circunscrevem. No entanto, enquanto na Psicologia Social, é possível sustentar uma visão efêmera de sujeito e de constância / mudança, na Psicologia do Desenvolvimento, o biológico, o genético estão muito presentes, como elementos constitutivos do sujeito. Assim, pouco a pouco, tenho reconhecido e respeitado mais a existência de um sujeito psicológico que, no entanto, não apaga sua materialidade enquanto sujeito do discurso. Acho mais difícil entender essa separação / distinção entre inter e intrapsíquico ou inter / intrasubjetividade. Faço minhas as palavras de Vygotsky, que o pensamento é um dialogo internalizado. Nós somos múltiplos, e esse próprio sujeito psicológico é múltiplo e multifacetado, podendo falar com seus próprios botões (com ecos de vozes alheias?). O inter e o intra me parecem duas faces de uma mesma moeda. Brincando de jogar com idéias, aqui aparece outra reflexão minha. Essa capacidade de falar com seus próprios botões, de se enxergar como outro, a respeito do qual reflete e se questiona, essa capacidade de desdobramento entre real e imaginário, é algo que se desenvolve na interação com outros. E essa capacidade pode 6 ficar inibida naqueles que tiveram de sobreviver na luta do dia a dia, sem ter alguém que lhes desse acolhimento, proteção e afeto. Essas pessoas passam do impulso para a ação, sem conseguir ter o necessário afastamento da realidade, e a possibilidade de imaginar essa ação, refletindo sobre ela e dirigindo mais intencionalmente suas ações. Acho que poderia trazer outros eixos, porem, antes de terminar esta apresentação, gostaria de abordar uma visão de desenvolvimento da qual sempre tentei me afastar, mas que agora percebo como bastante importante. Aquela que aborda estágios ou fases, e que é tão refletida nas avaliações e testes. Nas legislações e diretrizes sobre acolhimento familiar, abrigamento e adoção, e também no próprio ECA, nos surpreendem normas que abrangem a infância de 0 a 12 anos, sem considerar as especificidades de cada fase. Embora a idade não defina o nível de desenvolvimento e as características da pessoa, a idade, as fases ou estágios constituem circunscritores importantes. Não é possível pensar as mesmas medidas para crianças de 2, 6 ou 12 anos. Encontramo-nos aqui frente a um assunto polêmico, que vai exigir de nós maior maturidade. Própria de quem já está festejando seus 15 anos? Sejam bem vindas tanto as pessoas como as discussões Clotilde